terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Ética

ÉTICA A NOCÔMACOS
Livro I
Felicidade: o bem supremo

Claramente a ética aristotélica é teleológica, ou seja, tem um fim. O termo vem do grego τέλος, fim. É o estudo dos fins últimos da sociedade, humanidade e natureza. Suas origens remontam a Aristóteles com a sua noção de que as coisas servem a um propósito. Ou seja, o termo serve para indicar a parte da filosofia natural que explica o fim das coisas.
Toda ação do homem é realizada com vistas a um fim. Se, pois, tais ações tendem a um fim, e este fim, por sua vez, deve ser um bem supremo, então, o fim último de todas as ações humanas é o bem. Para Aristóteles, esse bem supremo é a felicidade, para onde todas as coisas tendem. Analogicamente, é como um sistema de bacias nas quais pequenos rios, outros maiores convergem para um caudal maior para enfim desembocar num oceano. A felicidade é caracterizada, então, como um bem supremo por ser um bem em si mesmo. Logo, é em busca da felicidade que se justifica a boa ação humana. Todos os outros bens são, podemos assim dizer, os meios para atingir o bem maior que é a felicidade.
Logo no início do livro I da Ética a Nicômaco, Aristóteles nos diz que “toda arte e toda indagação, assim como toda ação e todo propósito, visam a algum bem; por isso foi dito acertadamente (segundo nota do tradutor, provavelmente por Eudoxo) [1] que o bem é aquilo a que todas as coisas visam” (cap. 1).
A passagem acima caracteriza a ética teleológica de Aristóteles. É natural, ou seja, faz parte da própria natureza humana direcionar todas as suas ações para uma finalidade, pois sempre que houver uma ação, obrigatoriamente haverá uma intenção última. E qual seria esta última intenção para a qual se dirige a ação humana? Na concepção teleológica de Aristóteles percebemos claramente que um bem maior é a finalidade de bens ulteriores, finais. Entretanto, deve haver um fim, ou seja, um fim último, um bem desejado por si só, como o próprio Aristóteles diz no capítulo 2, parágrafo primeiro: “Se há, então, para as ações que praticamos alguma finalidade que desejamos por si mesma, sendo tudo mais desejado por causa dela, e se não escolhemos tudo por causa de algo mais (se fosse assim, o processo prosseguiria até o infinito), de tal forma que nosso desejo seria vazio e vão, evidentemente tal finalidade deve ser o bem e o melhor dos bens.”
Aristóteles apresenta uma hierarquia de bens, na qual divide tais bens em relativos e intrínsecos ao homem. Os bens relativos seriam aqueles necessários para a vida diária, ou seja, os bens materiais, os prazeres da vida, etc., e mudam a todo instante, uma vez que sempre desejam outros e maiores. Por outro lado, os bens intrínsecos não visam outros porque são auto-suficientes, ou seja, os bens intrínsecos são bens supremos.
Para Aristóteles, a felicidade é um fim último. É, portanto, um bem supremo que todos desejam. Para ele, há uma diversidade de compreensão por parte dos homens acerca da natureza da felicidade. Para muitas pessoas, a felicidade está nos prazeres mais imediatos; para outras, nas riquezas. Sobre a felicidade há, também, divergências, ou seja, alguns a identificam com coisas diferentes, dependendo das circunstâncias, como bem expõe o filósofo no capítulo quatro, primeiro parágrafo: “A maioria pensa que se trata de algo simples e óbvio, como o prazer, a riqueza ou as honrarias; mas até as pessoas componentes da maioria divergem entre si, e muitas vezes a mesma pessoa identifica o bem com coisas diferentes, dependendo das circunstâncias – com a saúde, quando ela está doente, e com a riqueza quando empobrece.”
Para Aristóteles, esses bens – fortuna, prazeres imediatos, saúde, honrarias, etc., - são denominados de bens relativos. São apenas os pré-requisitos para se atingir a felicidade. São, portanto, meios para se chegar ao fim último, que é o bem supremo. Assim, esses bens não são negados em sua teoria, todavia são entendidos como necessários para o homem conseguir uma vida feliz. Sendo assim, poderíamos dizer com segurança que o ser humano que possui amigos, riqueza, família, casa, emprego, telefone celular, estudo, carro, saúde, TV de LCD, provavelmente terá boas condições para viver feliz. Sob essa perspectiva, Aristóteles, no capítulo 8, parágrafo último, assim esclarece: “Mas evidentemente, como já dissemos, a felicidade também requer bens exteriores, pois é impossível, ou na melhor das hipóteses não é fácil, praticar belas ações sem os instrumentos próprios. Em muitas ações usamos amigos e riquezas e poder político como instrumentos, e há certas coisas cuja falta empana a felicidade – boa estirpe, bons filhos, beleza – pois o homem de má aparência, ou mal nascido, ou só no mundo e sem filhos, tem poucas possibilidades de ser feliz, e tê-las-á ainda menores se seus filhos e amigos forem irremediavelmente maus ou se, tendo sido bons filhos e amigos, estes tiverem morrido. Como dissemos, então, a felicidade parece requerer o complemento desta ventura, e é por isso que algumas pessoas identificam a felicidade com a boa sorte, embora outras a identifiquem com a excelência.”
Prosseguindo em sua discussão, diz-nos o estagirita que o homem possui um elemento essencial, que o diferencia dos outros seres vivos. Aristóteles está falando da racionalidade. Para ele, somente o homem é constituído de razão, pois nenhum outro animal, ou vegetal, possui esta característica natural que lhe é imanente. Perguntamo-nos aqui em que consiste a racionalidade no pensamento de Aristóteles, e em que ela contribui para a felicidade humana. Todos concordam que a racionalidade é uma faculdade extremamente fundamental e central para a compreensão da felicidade, posto que é essa atividade racional que constitui a natureza da felicidade.
Dotado da razão, o homem carrega consigo toda a potencialidade de ser um homem virtuoso. Para Aristóteles, a virtude é uma faculdade da alma responsável pela ação do homem e é adquirida pelo hábito, pelo exercício constante. Em outras palavras, é agindo de forma virtuosa que o homem se torna virtuoso. É exercitando o hábito de escrever que se torna um bom escritor. Portanto, a virtude adquirida pelo hábito e aperfeiçoada pela razão é a excelência moral do homem e por ela se alcança a felicidade.
A pergunta inquietante da ética é: “Como podemos atingir a felicidade?”. Entretanto, para Aristóteles, a felicidade é um bem imanente e realizável pelo homem e para o homem. Desta forma, a felicidade é conseguida pelo homem quando as suas ações estão de acordo com a atividade racional.
Ficou dito linhas acima que a felicidade é o bem supremo, que é auto-suficiente, desejado por si e por causa de si e nunca em vista de outro bem. Ficou dito, ainda, que é um bem que se adquire constantemente, não é algo estagnado, estanque, mas um movimento de ação que dá vida ao homem. Portanto, é a felicidade um bem eminentemente humano e essencial para a vida dos homens.
É importante enfatizar que todas as considerações feitas acerca da felicidade são aproximações parciais da felicidade, visto que a virtude, a justiça, os bens da alma e os bens exteriores, são bens relativos à ação individual de cada ser humano. No entanto, homem algum consegue ser feliz plenamente estando sozinho.
Em vista do acima exposto, Aristóteles defende que o homem é por natureza um ser político, o qual não consegue viver sozinho, por isso ele somente realizaria a sua felicidade plena na polis. Dito de outra forma, é o homem por natureza um ser social. É na polis que ele, o homem, completa a sua felicidade, visto que é lá que ele vai poder praticar as ações virtuosas. Não teria sentido algum ele ser virtuoso se não fosse pelo motivo de compartilhar com os demais cidadãos. De que valeria um homem virtuoso vivendo no deserto?
Para Aristóteles, a felicidade entendida na polis deve sempre visar o bem comum dos cidadãos. Aquele que age em vista do bem comum vive feliz. Assim, a felicidade é a arte de viver bem e é o bem supremo através do qual todas as ações do homem são voltadas.
Para concluir, a felicidade não é um bem realizável totalmente, mas sim, um bem que se busca constantemente na ação de viver. Desta forma, no livro I da Ética a Nicômaco, o filósofo apresenta uma hierarquia de bens, relativos e intrínsecos ao homem, bens esses que são classificados em insuficientes e auto-suficientes. A partir dessa classificação, ele define a felicidade como um bem auto-suficiente, ou seja, um fim intrínseco ao homem e um bem supremo. A felicidade é, então, um fim último e um bem supremo que todos os homens almejam.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Coleção OS PENSADORES. Ed. Nova Cultural. São Paulo, 1996, PP. 118-136.
[1] Eudoxo de Cnido (em grego Ευδοξος) (Cnido, atual Turquia, entre 390 e 338 a.C.) foi um astrônomo, matemático e filósofo grego. Viajou ao Egito, de onde teria trazido o cálculo mais exato do ano solar que introduziu na Grécia. O valor que atribuía era de 365 dias e 1/4, valor adotado pelo calendário juliano. Viveu quase sempre em sua cidade natal, onde fundou em escola e um observatório.

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